quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Representação em brinquedo.



É ali o cômodo cheio de traços. Dos primeiros aos finais.
Simplicidade pra beleza recém-estruturada com grafite. Quatro paredes escondidas por desordem e perfeição.
É tudo moldado, é dobradura de papel.
Ela não arquitetou, mas prossegue muito bem.
Aquele mundo de livro presente em matéria. Matéria picada, fotografia desenhada, traços de recordação.
Uma mesma linha que desenha o céu costura o vestido em papel.
E todo o conteúdo fantástico da caixa de expressão se ergue em imaginação.
Aquela porta guarda sonhos que não consideram o tempo. Que seja cena em dia real, ou em dois dias em uma página.
Que garota linda. E se ela fecha a porta do quarto e vai pro corredor, pode viver a mesma história, em outro dia, em outro lugar. E o que era de tinta se torna de sangue.


sexta-feira, 8 de abril de 2011

Desgaste ininterrupto.









Depois do quinto cigarro ela precisava reagir. Uma reação repetitiva.
As mãos tremiam sempre como se fosse a primeira ligação.
Ele não atendia. Ele nunca atendia.
Como uma segunda reação já era hora de tirar a roupa molhada e vestir algo seco. Já era hora de tirar a roupa. Tempestade.
Ele nunca abria a porta.
Não era um vestido qualquer, ela vestia lembranças.
Recomeçou a contagem. Mais um do estoque de falsa anestesia.
Fogo. Apagado.
Colecionadora de ligações, visitas, cigarros fumados. Colecionava descaso.
Sabia o que era amor-próprio, sabia que nada anestesiaria, só chegou ao estágio do “tanto faz”. Apenas recordações faziam diferença pra ela.
Vestida como naquele dia. Parada em frente ao número 104 como naquele dia. Como todos os dias.


terça-feira, 29 de março de 2011

Sorrateiro.

 












 
Eu não senti quando você chegou. Devo estar perdendo o hábito. Não digo o entusiasmo.
Isso me parece estranho, já que fui capaz de acordar com o calor da xícara que você segurava tão próxima do meu rosto enquanto me observava adormecida do seu lado da cama.
Bom dia e chá.
Olhar pra você agora é cair em lembranças. Lembranças de nós. Lembranças de mim, sozinha. Lembranças de vozes ao redor que tanto dizem sobre o que eu faço.
Eu ouço conselhos que mais parecem lições, ordens da vida.
Sentimentos não são regrados. Não há uma fórmula.
Vozes que sussurram: “errado”, para uma cabeça que acha que está certo.
Eu gosto muito do seu sorriso e não considero os aparentes motivos que tenho para não retribuí-lo.


terça-feira, 22 de março de 2011

Sem ela, sem lugar.

 












Continue correndo, falta muito pra chegar lá.
Cada tropeço é sangue a menos pra se preocupar.
Mas capriche mais quando for tentar fugir. Tranque seu coração e finja que esses olhos cansados são por outro motivo.
Que estrutura danificada é essa que você construiu? Apenas um sussurro dele e ela já caiu.
Acho que suas pausas estão erradas.
Sem descanso e sem morte.
É uma corrida contra si mesma, na qual existe último lugar.


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Próxima vez.

 













Quando coisas improváveis acontecem. A reação segura não é a imediata.
Se ele bater na porta dela hoje, as lágrimas não podem cair. Ela tem se preparado há meses pra não deixar isso acontecer.
Mas o sorriso dele não consegue ser tão perfeito na imaginação dela. O que torna as coisas difíceis nos feriados.
Ela mal sabe quanto tempo aquele coração ainda vai suportar. Apenas acompanha os ‘tiques’ do relógio que parecem prolongar o tempo, deixando o tédio aparecer à beira da angústia que ela não consegue afastar.
Não há marcas da última vez, tudo se foi quando ele fechou a porta.
Já faz muito tempo.
As maiores lembranças não estão espalhadas pela casa. Ela tem o sorriso dele quando se lembra, parece o suficiente.
Desceu as escadas ainda vestindo o casaco. E ao passar diante da janela duas coisas fizeram seu coração disparar: o carro preto parado em frente à casa, e o toque da campainha.